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Jacyra

Entre os que já chegaram e os que agora chegam

Conheci Jacyra em dezembro de 2022. Em busca de pescadoras de polvo, andava no Grande, último recife de corais antes da praia de Taipu de Fora. Avistei Jacyra caminhando sozinha pelos corais, em uma mão carregava um arame com dois polvos pendurados e na outra mão três ferros com a ponta arredondada que depois fui saber, chamam-se bicheiros.  Me aproximei de Jacyra e perguntei se podia ver o polvo, ao que ela me respondeu com um sorriso e um gesto de levantar o arame para me mostrar o polvo. Jacyra é uma mulher de poucas palavras, diferente de todas as outras pescadoras que conheci em Barra Grande, Jacyra fala pouco e prefere pescar só.

Jacyra com o Polvo

Sempre muito bem equipada, Jacyra vai à pescaria vestindo calça comprida colada, blusa de manga comprida de proteção UV, chapéu grande protegendo o rosto, cabeça e pescoço, e botas de segurança. Como Jacyra me contou, ela não nasceu ali na vila, mas sim em uma fazenda chamada Ingazeira, que pertencia a seu pai. A fazenda está a cerca de 20km dali, ainda na península de Maraú. Lá passava um rio, no qual ela e sua família pescavam peixes de vara, caranguejos e aratus que pegavam de lata.  Se mudou para Barra Grande há 32 anos atrás, quando estava grávida de sua primeira filha, em busca de trabalho, já que a Vila começava a crescer e surgiam oportunidades de trabalho relacionadas ao turismo. Ela e seu marido mudaram-se para uma fazenda para serem caseiros. Foi lá que viu uma mulher que sempre passava com polvos que pescava e lhe pediu que a ensinasse como capturá-los.

 

Como ela conta:

“A mulher não queria me levar não, disse que eu ia desmaiar porque estava grávida, mas eu disse que eu não sou mulher de desmaiar a toa não, e aí ela me levou. Aí eu fui aprendendo e depois andei com minhas próprias pernas.”

Jacyra - Pescadora

Andei com minhas proprias pernas

Jacyra está atualmente com 64 anos, e vive em um terreno próprio, localizado na avenida principal da Vila. Seu terreno possui moradia para toda sua família: seus 5 filhos, seu ex-marido e 13 netos. Nele estão as 4 casas de seus filhos já com suas famílias, a casa de seu ex-marido, com o qual ela afirma viver em paz, apesar do divórcio que aconteceu há 5 anos, e a sua casa, que compartilha com sua filha mais nova, suas duas netas e uma filha adotada que ela “pegou” do irmão pra criar quando a sua ex-mulher o deixou. Jacyra é aposentada pela colônia de pescadores de Maraú, e conta que criou todos os filhos com a pesca. Sempre teve que complementar a renda com bicos, faxinas, cozinhando em casas de famílias e para turistas, mas sua atividade principal sempre foi a pesca, especialmente agora, que aposentada, e já com os filhos adultos, têm as condições financeiras e de tempo disponível para poder ir pescar todos dias.

Vender o polvo

Atualmente, a prioridade de pesca para Jacyra é a alimentação, sua, de seus filhos, netos e amigas. No dia que a conheci, era um dia de jogo do Brasil na Copa do mundo de 2022, e ela me contou que estava pegando um polvo para fazer um vinagrete e comer com uma cervejinha com as amigas na hora do jogo. Mas como ela mesmo me disse mais de uma vez, ela pesca porque ama pescar, mesmo que não pegue nada, ela sempre vai:

 

“Eu amo a pescaria!”

Certa vez, quando fomos juntas pegar polvo, ao final do dia, ela me ofereceu o que tinha pegado e eu entendi que o polvo, enquanto produto final, não era o mais importante, o fazer, se preparar para a pescaria, ir até lá, caminhar na água, identificar os buracos, procurar os polvos fora do buraco, ferrá-los, capturá-los, é tão importante quanto o produto final.

Eu adoro pegar polvo

No passado, Jacyra teve um pequeno restaurante na Vila, sendo o carro chefe, o vinagrete de Polvo. Porém, com a pandemia, ela teve que fechar as portas e já não conseguiu mais reabrir, já que é muito trabalho para ela sozinha, e seus filhos e filhas possuem outros empregos. Suas duas filhas que estudaram até o ensino médio são professora e merendeira na escola municipal da Vila. Já seus filhos, que como ela mesma diz “desistiram logo da escola”, são pedreiros e pescadores. Jacyra gostaria de ter estudado mais, no lugar onde nasceu, não havia escola, então só foi começar os estudos aos 32 anos, quando se mudou para a Vila. Porém, a rotina maternal, somada aos trabalhos esporádicos de faxineira, cozinheira, além da pescaria, não lhe permitiram ir além do ensino fundamental.

Durante os meses que estive em contato com Jacyra, a pescaria oscilava brutalmente, haviam luas em que ela não pegava nenhum polvo, já em outras ela pegava 4 ou 5 kg de polvo. Conforme sua teoria, se uma lua é muito boa, a seguinte não será, assim como o contrário, se uma lua foi muito ruim para a pesca, a próxima seguramente será melhor. Isso provavelmente pode ser explicado pelo ciclo de reprodução e crescimento do polvo. Ela me explicou que um polvo cresce rápido, e que ela costuma ver um polvo pequeno em um buraco, e dali a 2 ou 3 luas ele já estaria grande. Jacyra não pega polvos pequenos, conforme ela explica:

“Não vale a pena, depois de limpos não sobra quase nada, e também, deixar eles crescerem né?! Se não, se onde tira nunca bota, acaba!”

Ao acompanhar as polveiras notei que existe um senso comum de que pegar polvos pequenos não é bom. De certa forma, é preciso fazer a manutenção do ciclo reprodutivo do animal para que exista um equilíbrio e a pesca não se extinga. Porém, também presenciei algumas polveiras, que em dias de muita dificuldade na pescaria, acabavam por pegar polvos menores, ou então ao ferrá-los por engano, sem saber que eram pequenos, depois “tinham” que pegá-los, pois já iriam morrer de qualquer forma.

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Jacyra nos corais

O cuidado de Jacyra na captura, também acontece na hora de “ferrar o polvo”, expressão utilizada para o momento em que se enfia o bicheiro no animal. Jacyra me disse que é sempre melhor ferrar o “raio” do polvo, ou seja, um de seus tentáculos, já que para vender é melhor assim. De fato, quando aprendi a limpar o polvo, entendi que quando se “ferra” a cabeça, o polvo fica com uma mancha em seu tecido que pode ser menos atrativa para a venda. Nos dias em que fomos juntas pescar, Jacyra me dava carona em seu quadriciclo, nos encontrávamos cedo, conforme o horário da maré seca, e seguíamos para um ou outro coral. Sua decisão de destino era baseada em alguns parâmetros: Se fosse o primeiro dia que ela ia naquela maré, ela gostava de ir na Bombaça, que conforme me disse, costuma ser bom. Porém, a depender da quantidade de pessoas que estivessem por ali pescando, ela decidia ou não caminhar para um ou outro lado, onde parecesse mais vazio.

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Jacyra

Existe certa conduta na pescaria dos polvos. Quando alguém, ou um grupo está pescando em um coral, os que chegam devem se direcionar a outros corais próximos, porém, nem sempre é o que acontece. Muitas vezes, especialmente as mulheres, sentem-se desrespeitadas por homens que não seguem esta conduta. Outro elemento para a decisão do coral, se deve ao histórico, caso ela tenha ido no dia anterior naquele coral, a boa ou má pescaria interferem no seu destino. Bem como, se na lua anterior, ela viu muitos polvos pequenos naquele coral, ela retorna na próxima lua para encontrá-los e ver se estão maiores. Jacyra identificava o tamanho dos polvos pelo buraco em que faziam suas casas, e em nossas caminhadas pelos corais em busca de polvos, ela mostrava muitos buracos de polvo pequeno, os quais nem tentava pegar, apenas apontava-os para que eu pudesse observar como os reconhecer, mas seguia em busca de polvos maiores.

Pegando polvo

A capacidade de memorização e reconhecimento dos buracos é uma habilidade bastante desenvolvida por todas as polveiras de Barra Grande, elas podem 2 ou 3 luas depois, se lembrarem com exatidão dos buracos onde haviam polvos pequenos, ou que não conseguiram “ferrar” na lua passada por se esconderem, ou estarem fora de seus buracos no momento. Assim como para a identificação de um buraco de polvo é preciso habilidade. Apesar de me explicarem que a identificação se relacionava com o acúmulo de conchas e restos de siris nas entradas dos buracos, ao longo dos 8 meses de campo, eu não podia diferenciar um buraco habitado ou não por um polvo.

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Corais

Jacyra afirma que nos últimos anos a quantidade de polvos têm diminuído consideravelmente. Para ela, isso se deve aos mergulhadores que tem aumentado na região e estão cada vez mais equipados, estabelecendo uma disputa desleal entre ela, a pé com 3 bicheiros, e eles com máscaras, pé de pato, e apetrecho que o permitem mergulhar e pegar os polvos antes que eles cheguem nos corais. Isso inclusive também impede que eles se reproduzam, já que conforme ela diz:

“Os polvos colocam os ovos antes dos corais, mas se eles são pegos lá não conseguem colocar, e aí não chega nada aqui.”

Mergulhadores

Além disso, conforme afirma Jacyra, os meses do verão são os melhores meses para a pescaria, já que a água está clara, e a visibilidade dos polvos e buracos é melhor. Já no inverno a água está turva com as chuvas, e além de ser mais difícil a visibilidade, os polvos não vem aos corais quando a água está doce. O problema é que durante os meses de verão, melhor época para pescar, é também o período de maior quantidade de turistas e mergulhadores. Assim, apesar de mais difícil, ela ainda acha o inverno melhor para pescar, já que não precisa disputar com os mergulhadores. Passávamos cerca de 4 horas caminhando pelos corais em busca de polvos. Jacyra levava uma pequena mochila, com uma garrafa de água pequena, uma sacola plástica para guardar os polvos na volta, e algum dinheiro que às vezes usava para colocar gasolina no quadriciclo na saída para a pescaria. A simplicidade da pesca do polvo, parece fazer acessível este tipo de pescaria, dependendo apenas, de alguém que lhe ensine, além de tempo para pescar e alguma outra forma de renda, caso a pescaria não seja farta. Depois de pescar, ela conta que chega em casa, limpa os polvos e congela, e então espera, as pessoas ligarem para ela perguntando se tem polvo e ela vende. Ela não precisa divulgar, conta que nunca aconteceu de ter tantos a ponto de perdê-los, mas que já aconteceu o contrário, procurarem-na querendo comprar e ela não ter para vender muitas vezes, nesse caso, os restaurantes compram em Ilhéus e até em Canavieiras.

Os polvos de Jacyra 

Diferente das outras polveiras, nascidas e criadas ali na Vila de Barra Grande, geralmente parentes entre si, Jacyra ocupa uma posição transitória, ela não é considerada nativa pelo resto do grupo de polveiras, mas é conhecida e respeitada por todas, apesar de não pescarem juntas, mesmo existindo certo grau de parentesco já que a filha de Jacyra é casada com o filho de Marlita que é irmã de Iracema e prima de Chica.  Assim pode-se dizer que as relações de parentesco estabelecidas ali no território de Barra Grande, não estão diretamente vinculadas a laços de afinidade e/ou consanguinidade, mas para ser parente, e por tanto partilhar a pescaria, é preciso ter crescido junto. Porém, a pesca solitária não é um problema para Jacyra que afirma que sempre se acostumou assim, e que prefere assim. Suas memórias de partilha familiar estão vinculadas à pescaria no rio da Fazenda de seu pai e já não compõem mais sua pesca atual. A fazenda ainda existe e nela moram alguns de seus irmãos. Porém, a casa de seus pais, ela diz estar abandonada, e gostaria de reformá-la, já que possui vínculos afetivos importantes com o lugar. Mas as condições financeiras dela e dos irmãos, não permitem.  A relação de Jacyra e de seus parentes com o território, reforçam a ideia de que suas prioridades não estão baseadas em princípios capitalistas, como a ascensão econômica. Apesar de ela e seus irmãos viverem em casas bastante rústicas e precárias, eles são proprietários de terras que valem muito dinheiro no mercado imobiliário atual da região, mas não cogitam a venda. A relação com o território está orientada por vínculos afetivos, e o modo de vida, os quais não são financeiramente substituíveis.

Lia e Miracy
Loloca Bené e Marisa
Chica
Jacyra
Técnicas
Foto 42 - Samburá.JPG
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