Emergent Ecologies
rio de janeiro
Com seu litoral extenso, o Rio de Janeiro parece oferecer oportunidades abundantes para se refrescar. A realidade, no entanto, é muito mais sombria/brutal/dura: um número desproporcional de moradores que vivem perto da praia é branco e rico. São pessoas que podem caminhar apenas alguns quarteirões de seus condomínios, onde têm acesso a ar-condicionado, para passar o tempo de lazer aproveitando a praia. Por outro lado, milhões de moradores do Rio, que tendem a ter baixa renda e a serem pardos ou negros, vivem afastados do litoral, em bairros que constituem ilhas de calor urbanas, onde as temperaturas podem subir muito mais do que nos bairros costeiros.
Assim como em Imperial Valley, na Califórnia, essas áreas costumam apresentar grande presença de tijolos e concreto e poucas árvores. O Rio de Janeiro é uma das poucas cidades do mundo que pode se orgulhar de estar localizada dentro de uma floresta tropical e de possuir muitos espaços verdes. No entanto, as árvores tendem a refrescar/resfriar apenas as áreas ao seu redor imediato, deixando muitas regiões de baixa renda com vista para áreas arborizadas, mas sem acesso efetivo aos seus benefícios térmicos.


O calor afeta as pessoas de maneira desigual, desde o acesso a tecnologias de climatização em suas casas, a forma como se deslocam pela cidade e os locais onde trabalham e estudam. Moradores que vivem em bairros suburbanos distantes podem passar de duas a três horas no trajeto de ida e volta para o trabalho, em ônibus e trens que nem sempre contam com ar-condicionado em funcionamento. Pessoas empregadas em trabalhos braçais frequentemente trabalham ao ar livre, sem acesso a sombra ou água, seja em atividades como construção civil ou coleta de lixo, seja na economia informal, como vendedores ambulantes de praia.
Casas sem ar-condicionado, comuns nos bairros de baixa renda do Rio, muitas vezes não permitem que os moradores amenizem o calor de forma adequada, mesmo durante a noite. As favelas, que costumam ter casas autoconstruídas frequentemente não contam com conexões regularizadas à rede elétrica da cidade. Como o serviço elétrico é precário, os transformadores costumam ficar sobrecarregados e apagões provocados por incêndios se tornam comuns, especialmente no verão. Quando ocorrem apagões, moradores podem esperar dias pela restauração do serviço, o que significa que não conseguem amenizar o calor com ventiladores e que, por vezes, até mesmo a água, que precisa ser bombeada para as caixas d’água nos telhados das casas, fica restrita ou falta. Enquanto uma parcela significativa dos moradores da cidade vive em casas de tijolos de concreto, com poucas janelas, construídas no alto das colinas e acessadas por becos estreitos com muitos degraus, uma minoria mais branca e rica reside em prédios modernos, com elevadores e fontes de água e energia bem estabelecidas. Durante as recentes ondas de calor, os bairros mais quentes do Rio de Janeiro atingiram sensação térmica de 62 °C.
As fotos e vídeos apresentados aqui são de Marcelo Costa Braga, com excessão das nove fotografias finais que são 5 de Jennifer Roth Gordon e as últimas 4 de Erika Larkins.























