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Sobre a Pesquisa

Apresentamos os primeiros resultados da pesquisa "Pescando Plásticos: efeitos socioambientais dos resíduos na vida dos pescadores artesanais da Baía de Guanabara", conduzida no estado do Rio de Janeiro, Brasil. A pesquisa foi realizada entre os meses de fevereiro e agosto de 2023 e utilizou diferentes metodologias, a saber: entrevistas estruturadas, observação participante e acompanhamento longitudinal de famílias de pescadores. Combinados, este processo metodológico ofereceu uma perspectiva rica e multifacetada dos problemas sócio ecológicos que serão detalhados abaixo. O objetivo da pesquisa foi o de compreender os impactos socioambientais provocados pelos resíduos plásticos na vida diária de pescadores que vivem na cidade de Magé e na Ilha do Governador, ambas localizadas no fundo da Baía de Guanabara. A pesquisa revela como os resíduos plásticos afetam não apenas o meio ambiente, mas também a economia e o bem-estar social dessas comunidades de pescadores, em conexão com as plantas e os animais. 

 

Embora o foco do trabalho trate da relação entre plástico e pesca, os resultados incluem outros problemas como: presença intensiva da indústria petroquímica, a sobrepesca via pesca de arrasto, o controle local por grupos paramilitares, o assoreamento avançado, bem como a ausência efetiva de fiscalização de crimes ambientais. Ao olharmos para esses problemas em conjunto, a pesquisa contribui para a compreensão de um cenário complexo em diferentes escalas, em que as questões ambientais, sociais e econômicas se entrelaçam. Este estudo oferece um panorama dos desafios que as comunidades de pescadores enfrentam na Baía de Guanabara, indo além da questão do plástico e abordando as nuances de seu contexto socioambiental. Assim, nos parece fundamental que os problemas enfrentados pelos pescadores artesanais sejam abordados de maneira integrada, buscando soluções que considerem todos esses aspectos para melhorar a vida dessas comunidades e proteger o meio ambiente.

 

Destacamos o fato de que a maioria dos interlocutores da pesquisa são pessoas negras. Este dado acrescenta uma camada crítica de compreensão ao estudo, na medida em que a questão do racismo ambiental na região da Baía de Guanabara se torna latente. O racismo ambiental refere-se à forma como as minorias étnicas e raciais são desproporcionalmente afetadas por problemas ambientais devido a práticas discriminatórias e desigualdades sociais e econômicas. Com o desenvolvimento da pesquisa, iniciamos contato com pescadoras mulheres e LGBTQI+, o que pode ampliar o escopo de pesquisas futuras e aprofundar a compreensão das intersecções de gênero, sexualidade, raça e questões ambientais.

EQUIPE

Camila Pierobon

Pesquisadora associada ao Centro de Estudos Brasileiros Behner Stiefel (SDSU. Doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pesquisadora dos grupos Casa e ResiduaLab. Atualmente pesquisa sobre meio ambiente e espaço urbano..

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Giovanna Monteiro

Doutoranda no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). É pesquisadora no grupo CASA e no BONDE. Seus interesses de pesquisa são: gênero, militarização, infraestrutura e mobilidade urbana.

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Federico de Assis

Graduando em Ciências Sociais, pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), pesquisador do CORRE: Experimentações etnográficas em territórios urbanos. Fotógrafo. Interessado pelos temas da Cultura, religião, "raça" e periferias urbanas.

METODOLOGIA

No momento de aproximação com os interlocutores de pesquisa, a equipe de trabalho se apresentou como pesquisadores associados às universidades às quais estão oficialmente vinculados, a saber: Universidade Estadual de San Diego, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Sobre a produção de dados, todos os esforços foram feitos para estabelecer relações respeitosas e profissionais com os interlocutores que encontramos durante nosso trabalho de campo. Para este relatório, optamos por alterar os nomes dos nossos principais interlocutores e ocultar dados pessoais sensíveis que os identifiquem diretamente. Identificamos apenas as associações de pesca, quando os dados foram obtidos em eventos públicos.

 

Para a realização da pesquisa, elaboramos diferentes ferramentas metodológicas, a fim de compreendermos a diversidade de problemas socioambientais presentes na vida dos pescadores artesanais da Baía de Guanabara, com particular atenção para o plástico.

Entrevistas Online

A primeira metodologia utilizada foi um roteiro para entrevistas elaborado pelos pesquisadores, que foram aplicadas com lideranças da pesca artesanal, integrantes de movimentos sociais e acadêmicos que trabalharam com o tema na Baía de Guanabara. As entrevistas foram realizadas de forma remota, através da plataforma Zoom, ao longo dos meses de fevereiro a abril. Durante esse período, a coordenadora da pesquisa conduziu quatro entrevistas estruturadas com lideranças da pesca artesanal, uma entrevista com um ativista ambiental e uma com uma pesquisadora que dedicou seus estudos ao fenômeno da pesca artesanal na região em questão. O objetivo destas entrevistas foi o de compreender quais eram os problemas, e qual a amplitude dos conflitos que os pescadores artesanais enfrentam, buscando, em particular, situar o papel dos resíduos plásticos nesse contexto.


A estratégia de iniciar as entrevistas de maneira online, antes de iniciarmos o trabalho de campo in loco, partiu de experiências prévias de pesquisa com lideranças de movimentos sociais na cidade do Rio de Janeiro. Nessas ocasiões, observou-se que essas lideranças demonstravam maior facilidade de estabelecer diálogo com pesquisadores e estavam acostumados a falar em público. O recurso às entrevistas online propiciou resultados muito positivos: as informações recebidas não só refinaram o escopo de investigação como também reformularam as questões norteadoras da pesquisa. Tal preparação foi decisiva para preparar a equipe para uma imersão efetiva e segura no campo.

Acompanhamento das Famílias de Pescadores

O segundo caminho metodológico foi o acompanhamento mensal de 6 famílias de pescadores (3 moradoras da Ilha do Governador e 3 da cidade de Magé), a fim de compreendermos os problemas cotidianos enfrentados pelos pescadores artesanais. Este trabalho foi realizado pelos assistentes de pesquisa, com a duração de 4 meses. 

 

A escolha de realizar um estudo longitudinal com um número seletivo de famílias foi intencional e estratégica. Ela visou estabelecer laços firmes e confiáveis, essenciais para garantir a integridade e qualidade dos dados coletados. Esse vínculo estreito com as famílias não somente enriqueceu nossa pesquisa, mas também possibilitou conexões com outros pescadores na região. As relações secundárias que emergiram desses contatos iniciais foram facilitadas, uma vez que se ancoravam em laços de confiança preexistentes, proporcionando assim uma expansão mais orgânica da nossa rede de interlocutores. Este aspecto relacional da metodologia revelou-se bastante produtivo, uma vez que pudemos circular em diversos contextos sociais, tanto em ambientes privados quanto em esferas públicas, que nos permitiram compreender as dinâmicas socioambientais na Baía de Guanabara que estão descritas abaixo. 

 

O acompanhamento das famílias se iniciou no mês de abril. Na cidade de Magé, acompanhamos famílias de pescadores que vivem na praia da Piedade, de caranguejeiros que trabalham no Rio Suruí e de pescadores que vivem na Praia de São Lourenço. Já na Ilha do Governador, acompanhamos famílias de pescadores em três localidades: na Praia de Tubiacanga, Praia dos Bancários e na Colônia Z-10. A equipe de pesquisa realizou ao menos duas entrevistas formais com cada uma dessas famílias e manteve conversas informais com estas mesmas famílias no período de quatro meses.

Observação Participante

A terceira abordagem metodológica adotada foi a observação participante em eventos públicos organizados ou frequentados pelos pescadores artesanais. Ao engajar-se nesses eventos, a equipe de pesquisa teve a oportunidade de observar diretamente as interações e os discursos prevalentes na comunidade, fornecendo uma camada adicional de compreensão dos problemas enfrentados pelos pescadores da Baía de Guanabara.

 

Em abril, os assistentes de pesquisa deram início à etapa de campo, atendendo a dois tipos distintos de eventos públicos. O primeiro tipo incluía eventos organizados pelos próprios pescadores artesanais das localidades foco do estudo. O segundo compreendia eventos desenhados com os pescadores artesanais como principal público-alvo. No intervalo de maio a agosto, a coordenadora da pesquisa se estabeleceu no Rio de Janeiro para uma participação ativa nesses eventos, permitindo uma observação direta e um envolvimento mais denso com a comunidade pesqueira.

A agenda de eventos públicos dos quais a equipe participou foi diversificada, propiciando oportunidades de aprendizado e engajamento. Entre eles, figuram uma audiência pública promovida pela empresa Petrobrás, uma manifestação aquática, intitulada 'barqueata', conduzida pelo Movimento Baía Viva, e uma iniciativa de ação social promovida conjuntamente pela Capitania dos Portos e pela Marinha do Brasil. Além disso, a equipe participou da inauguração de um novo píer para os pescadores artesanais, fruto de uma colaboração entre a Associação de Pescadores Livres de Tubiacanga e a Confrem. Outros eventos relevantes foram a série de capacitações para pescadores, organizada pela Associação de Homens e Mulheres do Mar (AHOMAR), assim como cartografias sociais lideradas pelos Programas de Educação Ambiental que existem na localidade. A equipe também teve a oportunidade de participar do Primeiro Congresso Nacional de Manguezais (ConMangue), uma iniciativa da ONG Guardiões do Mar, que contou com a presença de diversos pescadores artesanais.

Fotos: Frederico de Assis. Data: 09/05/2023. Local: Niterói - Audiência Pública realizada pela empresa Petrobrás relativa à Etapa 4 de exploração de petróleo na Bacia de Santos. Na primeira foto, destacamos a composição racial daqueles que tomam as decisões sobre a exploração de petróleo. O fato de todos os representantes da Petrobrás serem brancos foi tema bastante comentado pelos pescadores artesanais nos bastidores da reunião. Na segunda foto, destacamos o perfil racial dos pescadores artesanais da Baía de Guanabara, que serão diretamente impactados pela exploração de petróleo na Bacia de Santos.

Ao realizar esses três procedimentos metodológicos, a equipe de trabalho conseguiu estabelecer relações com diferentes atores presentes no campo da pesca artesanal da Baía de Guanabara e capturar a diversidade de problemas enfrentados por eles.

Seleção dos Locais de Pesquisa: Magé e Ilha do Governador

A seleção da cidade de Magé e da Ilha do Governador, na cidade do Rio de Janeiro, como locais de pesquisa ocorreu diante das seguintes circunstâncias. Em primeiro lugar, levamos em consideração a experiência prévia dos integrantes da equipe que têm longo histórico de pesquisa sobre o tema da violência urbana na cidade do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense. Compreendemos que os locais onde grupos armados - como milícias ou tráfico de drogas - dominam o território, exigem muito tempo do pesquisador para realizar o trabalho de campo com segurança e também para estabelecer relações de confiança que permitam extrair dados de campo que respondam à questão de pesquisa. Também estava previsto para este trabalho a produção de imagens fotográficas, gravações de vídeos e áudios, o que seria impossibilitado em locais dominados por grupos armados. Diante deste fato social que caracteriza a cidade do Rio de Janeiro e a região metropolitana, a equipe fez uma busca ativa dos locais onde haveria forte atividade de pesca artesanal e não houvesse presença ostensiva de grupos armados. 

 

Em segundo lugar, as informações recebidas via entrevistas online nos orientaram quanto à escolha dos locais a serem pesquisados. A partir deste material, constatamos que as lideranças da pesca artesanal e os ativistas ambientais compartilhavam a preocupação em apresentar a Baía de Guanabara como um local que, embora tenha problemas profundos, existe grande diversidade de vida marinha, de pássaros e de pessoas. A percepção dos pescadores diz que as maiores indústrias poluidoras da região utilizam a retórica da Baía de Guanabara como uma "Zona de Sacrifício" necessária para o desenvolvimento local e nacional. O ativismo realizado por esses pescadores vai na contramão dessa narrativa ao mostrar a vida que resiste na baía e que precisa ser preservada. Nas conversas, eles nos solicitaram compromisso com esta agenda. 

 

Em terceiro lugar, fizemos um levantamento bibliográfico sobre a produção acadêmica da pesca artesanal e sobre as pesquisas que tratam da vida presente na Baía de Guanabara. Constatamos que a grande maioria das pesquisas acadêmicas centraram suas análises na pesca artesanal que ocorre entre a Ponte Rio-Niterói e a entrada da baía. São poucas as pesquisas qualitativas que tratam da pesca artesanal localizada no fundo da Baía de Guanabara, com raras exceções para dissertações de mestrado recém defendidas na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e Universidade Federal Fluminense. Assim, nos pareceu importante compreender os problemas socioambientais enfrentados pelos pescadores artesanais localizados no fundo da baía. 

 

Em relação às pesquisas que tratam da vida na Baía de Guanabara, constatamos a centralidade das pesquisas, mas também das políticas públicas e do interesse da sociedade civil, na Área de Proteção Ambiental de Guapimirim. De fato, esta é a área de preservação ambiental mais importante da Baía de Guanabara, onde se concentra a maior área de manguezal preservado, além de três rios que fornecem 80% da água doce limpa que chega na baía. Sem negar a importância deste espaço, nosso intuito foi o de conhecer e apresentar outros locais na Baía de Guanabara em que há diversidade de vida. Assim, encontramos a Área de Proteção Ambiental Municipal de Suruí, na cidade de Magé e a Área de Proteção Ambiental do Jequiá, na Ilha do Governador. 

 

A seleção dos locais de pesquisa levou em consideração, portanto, os componentes acima apresentados, a saber: locais onde há alta atividade pesqueira, presença não ostensiva de grupos armados, concentração de plástico e outros resíduos, além da presença de áreas de proteção ambiental pouco conhecidas da população mais ampla.

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