top of page
Foto 148 - Mara e Nelson pescando no mangue.jpg
Viver do mangue

Embarracar

A expressão “embarracar” é muito frequente entre os pescadores e marisqueiras e se refere ao acampamento montado em alguma área do manguezal, com uma barraca construída com madeira retirada no próprio local e uma lona. Lá, pescadores e pescadoras permanecem durante vários dias para pescar.

Embarracar

Como contou Karoline, ela aprendeu a pescar com sua avó Dona Maria, aos 8 anos, quando começou a ir junto com ela para embarracar. Em geral, vão famílias inteiras com crianças a partir de 7 ou 8 anos para o acampamento. Lá pescam de tudo o que o mangue oferece, aratus, siri, caranguejo, ostra, sururu, moapê, camarões, baiacu e peixes diversos. Como me disse Marcela: “Se não dá uma coisa, da outra”. Utilizando-se das mais diversas técnicas e ferramentas, os pescadores e marisqueiras podem permanecer emabarracados dias ou meses, indo à cidade para vender os pescados e comprar gelo e retornando ao acampamento. Lá mesmo, cozinham e beneficiam seus pescados, já os deixando prontos para comercialização.

Embarracar

Para embarracar é necessário uma canoa com os remos, que levará os pescadores até o ponto de acampamento e os ajudará a se mover pelo mangue durante os dias da incursão. Além disso leva-se uma lona grande para construir o acampamento; alguns utensílios de cozinha, facas e panelas para cozinhar; facão que tem usos diversos como cortar lenha, abrir cocos e caminhos; as mais diversas ferramentas de pesca: siripoia, redinha, caniço, linha, covo, manzuá, tarrafas, além dos baldes e sacos para armazenar os pescados; e gelo para os preservar.  Além de tudo isso leva-se óleo de dendê, sal e farinha de mandioca como base da alimentação que será complementada por frutas e pescados coletados ali. Este tipo de pesca representa todo o conhecimento tradicional dessas comunidades pesqueiras. Na pesca com as mais variadas técnicas e ferramentas e no beneficiamento das mais diversas espécies, a sabedoria tradicional da pesca artesanal se impõem. Utilizando recursos locais para fazerem abrigo, o fogo feito com as casas de cupim para espantar os mosquitos, o modo de se locomover na lama, nas galhas do mangue e na canoa por entre os cursos dos rios, são exemplos de grande conhecimento para sobreviver no mangue.

Coifo, siripoia e manzuá

Embarracar é uma prática especial, sempre mencionada como algo muito prazeroso. O contato com a Natureza representa paz e tranquilidade como muitas pescadoras me relataram. Além disso, a vivência do tempo de maneira mais orgânica, a aventura da pescaria, o convívio entre pescadores, familiares e amigos, são destacados como momentos de grande prazer. Expressões como: “Assim que a gente puder, vai embarracar”; “Eu tô doida pra embarracar”; “Morro de saudade de embarracar”,são frequentes nas entrevistas com as pescadoras, e refletem o grande prazer destas mulheres nesta prática. Só não podem embarracar, crianças pequenas e suas mães, assim, durante a primeira infância é comum que as mães se afastem por um tempo do mangue. Neste caso, elas ficam responsáveis por receber os pescados e os preparar para a comercialização. Como é o caso de Karoline e Marcela, ambas pescadoras associadas à Associação dos Tiradores e Catadeiras de Caranguejo de Canavieiras, que com filhos pequenos estão afastadas temporariamente do mangue, mas manifestam sua saudade e desejo de retornarem assim que os filhos estiverem maior.

Foto 147 - Mangue.jpg

Mangue

Embarracar é uma prática dos que vivem em locais mais urbanizados como a cidade de Canavieiras ou as cidades localizadas às margens da BA-001. Já as comunidades mais afastadas como Campinhos e Barra Velha, não embarracam, já que já estão localizadas em meio ao mangue, e assim podem praticar esse tipo de pesca imersiva retornando para suas casas ao final do dia. Assim, saem ao amanhecer, e coletam “Tudo o que mangue dá”. Quando estive em Barra Velha com Mara e sua família, em um dia de pesca, retornamos com cerca de 20 aratus, 10 siris, 4 caranguejos, 2 baldes de ostra, alguns sururus,  e alguns peixes. Primeiro Mara “botava a canoa” para seu marido Nelson, o que significa dizer que conduzia a canoa para ele jogar a tarrafa,  depois eles conduziam juntos até alguma margem do mangue, ela subia nas gaiteiras (galhos das árvore do mangue) e pescava aratus, depois voltava para a área alagada e retirava ostras e sururus. Enquanto isso Nelson sumia dentro do mangue e algum tempo depois retornava com o saco contendo caranguejos, siris e ostras.

Foto 148 - Mara e Nelson pescando no mangue.jpg

Mara e Nelson pescando no mangue

Em geral, siris, caranguejos, aratus, peixes e camarões são majoritariamente destinados à comercialização, enquanto ostras , sururus e outros moluscos são nas comunidade Barra Velha  e Campinhos majoritariamente destinados ao consumo familiar.  Assim como os crustáceos, os moluscos são aferventados, retirados de suas conchas, ensacados e congelados e servirão para a alimentação dessas famílias. A moqueca de ostra me foi oferecida tanto em Campinhos quanto em Barra Velha, e representa um prato típico local. Muito saboroso, o prato é elaborado a partir de diversos ingredientes, todos coletados ali mesmo: o dendê, o leite de coco e a ostra.

Catando Ostra

A comunidade extrativista da RESEX de Canavieiras tem sobrevivido durante muito tempo em uma relação de equilíbrio e subsistência com o mangue. Extraindo seu alimento e sua renda do mangue, pescadores e marisqueiras reproduzem os conhecimentos tradicionais repassados por seus ancestrais como forma de sobrevivência e cultura. Viver do mangue exige sabedoria, e força. Como me foi repetido muitas vezes, a vida no mangue não é fácil. É uma vida dura, cansativa e que acarreta inúmeros prejuízos ao corpo. Mas, o convívio junto a natureza, a liberdade e autonomia que o mangue permite e o respeito e valor pela sabedoria oferecida por seus antecessores, faz do mangue um lugar muito valioso para essas pessoas, como afirma Evanir, pescadora:

“É um trabalho digno, é o que minha mãe pode oferecer pra gente, e eu aceitei. Eu soube dar valor.”

Memória climática e alterações na paisagem

Para viver do mangue, é preciso conhecer as luas e marés; os ciclos de cada espécie, seus comportamentos, alimentos, e casas; É preciso conhecer e dominar diferente técnicas e manuseios; São necessárias diversas habilidades e sensibilidades, para usar o vento, reconhecer o tempo, e esperar o momento certo.  Para viver do mangue é necessário se adaptar, ir conforme a maré, aceitar o que mangue dá e agradecer; Entender que um dia dá e no outro não, e mesmo assim, continuar. Convivendo com as diversas pescadoras e marisqueiras que conheci na RESEX de Canavieiras, aprendi muitas técnicas de pesca, artefatos, armadilhas e espécies. Mas aprendi muito também sobre resiliência, generosidade e força.

Foto 151 - Tirando ostra.jpg

Tirando ostra

O cuidado que cada uma delas me ofereceu, das mais diversas maneiras: me preparando um alimento, me oferecendo uma roupa ou bota emprestada, me dando  explicação ou muitas, me garantindo companhia todos os dias e em todos os lugares que eu desejava ir, refletem sua generosidade.

Foto 150 - Criança brincando com tarrafa.jpg

Criança brincando com tarrafa.

A luta diária, não só por si, mas por toda sua comunidade, buscando melhorias, enfrentando fome, corrupção, violência doméstica, preconceito, revelam a força dessas mulheres. Seus sorrisos, sobre seus corpos cansados e adoecidos, e a presença massiva de mais de 70 mulheres em reuniões que organizaram para que eu as conhecesse, inspiram a garra e coragem de viver apesar de todas as adversidades.

Foto 152 - Luana e Aninha - pescadoras do mangue.jpg

Luana e Aninha - Pescadoras do mangue

Ao relatar formas de pesca, aprendi muito mais sobre os valores que orientam essa comunidade. Entre os pescadores e marisqueiras de Canavieiras a luta é coletiva, juntos, eles defendem seus direitos, e seguem conquistando melhorias para todos.  As mulheres, seguem cuidando de seus filhos, seus maridos e de quem mais necessitar, e ainda assim, lutam por si, para se valorizarem e se fortalecerem.

Vida no mangue - Dona Lindnalva

bottom of page