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Caranguejo, Siri e Aratu

Técnicas de Pesca de crustáceos na RESEX de Canavieiras

Lu Andrade- Pescadora

Na RESEX de Canavieiras as principais espécies pescadas pelas mulheres são os crustáceos caranguejo, siri e aratu. Estes são principalmente comercializados, mas também consumidos, conforme a necessidade e disponibilidade de outros alimentos ou dinheiro para comprá-los.  Cada espécie possui suas técnicas específicas de captura, sendo que algumas comunidades são mais especializadas em determinada espécie, e outras comunidades capturam “tudo o que o mangue dá”. Essa diferença, se baseia em diversos parâmetros, como por exemplo na comunidade Atalaia em que as mulheres são pescadoras de siri, e apesar de haverem muitos aratus, elas não têm o costume de pescá-los. Já em Barra Velha ou Campinhos, ouvi muitas pessoas dizerem que pegam tudo o que o mangue dá. Provavelmente o maior isolamento dessas comunidades reduz o acesso a outros alimentos e outras rendas. Assim pode-se produzir renda a partir da captura e beneficiamento de uma única espécie e se alimentar desta e/ou de outras espécies do mangue, ou pode-se também comercializar espécies variadas, conforme o que o mangue oferece, desde que haja conhecimento de cada espécie, seus ciclos reprodutivos, locais de pesca,  suas técnicas de captura, beneficiamento e armazenamento.

Saída pro mangue

O preparo para a ida ao mangue é similar para as diferentes espécies. É necessário se proteger do sol e dos mosquitos e dos cortes em pés e mãos ao caminhar pelo mangue. Por isso, em geral elas usam calças e blusas de manga comprida e bota, porém, as botas adequadas que são as de mergulhador por fixarem bem ao pé e evitarem a entrada de lama e umidade, são muito caras e se desgastam rápido, por isso elas encontram outras soluções, como Dona Ana, que nos mostrou uma espécie de bota feita de calça jeans, que fica bem presa aos pés e protege dos cortes das ostras e galhos. Outra questão são os repelentes, já que muitas delas não possuem dinheiro para comprar repelentes potentes para afastar a grande quantidade de mosquitos do mangue, elas utilizam óleo diesel em seus rostos, orelhas e mãos (áreas não protegidas pelas roupa), o que acarreta alergias constantes e desenvolve doenças de pele graves.

Dona Ana com Bota de Calça Jeans

O local de pesca, depende de diversos fatores, os locais bons de pesca de cada espécie são conhecidos e frequentados, até que se torne um pesqueiro ruim “que não está dando”. Existem lugares mais pretensos a uma espécie ou outra, e conforme o que querem, buscam os lugares apropriados, mas a “maré grande” (que acontece nas luas cheia e nova) é melhor para todos os mariscos, já que a maré enche mais levando mais crustáceos ao mangue, e vaza mais, tornando o mangue mais exposto para a captura dos mariscos.

Aratu

Canoa

O Aratu é uma espécie de crustáceo preto avermelhado, a principal espécie comercializada na RESEX de Canavieiras, sendo a espécie mais capturada e beneficiada.  Sua pesca se dá nas áreas secas do mangue, assim, para pescar aratu é preciso ir com a maré vazando, e se possível permanecer até ela começar a encher. Para pescar o aratu utiliza-se uma vara com linha e isca. A isca mais comum é a chamada “almofada”, um pequeno crustáceo que anda pelos galhos do mangue e é facilmente capturado com as mãos, mas pode também se utilizar pedaços de outros aratus, como iscas. Conheci duas modalidades de pesca do aratu: Com Lu Andrade de Puxim do Sul fomos pescar de dentro da canoa, neste dia íamos de canoa pelo rio, encostando nas margens mais abertas do mangue e passando um tempo por ali e depois seguíamos para uma nova margem; Porém, a maioria das pescadoras de aratu que conversei pescam caminhando pelo mangue. Assim vão de canoa até um ponto, e descem da canoa adentrando o manguezal. Lá se sentam em uma “gaiteira” (nome dado aos galhos das árvores do mangue) e começam a pescaria.

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Pé na Lama

Na pesca de canoa, atraca-se a canoa, finca o remo no fundo do rio e o prende a uma corda da canoa, para que ela não se movimente. Na pesca de canoa o balde será o recipiente em que os aratus serão depositados. Já na pesca de cima da gaiteira, antes de subir, posiciona-se o saco (em geral saco de ração, devido a seu plástico firme) no chão abaixo da gaiteira em que a pescadora estará; utilizando dois galhos arrancados ali mesmo da gaiteira e chamados “fusquilha”, um serve para prender o saco acima do chão e outro mantém a abertura do saco fixado de uma lado a outro da boca do saco. Essa arrumação é essencial pois a técnica de pesca do aratu envolve um rápido lançamento do animal dentro do saco/balde. Então arranca-se algumas folhas das gaiteiras, quebram-nas em pedaços menores e jogam no chão onde se deseja pescar, depois batem com a vara nas gaiteiras e assobiam. As pescadoras me explicaram que a “zuada” (barulho) atrai os aratus, que curiosos aparecem para ver o que está acontecendo. Quando começam a aparecer, a pescadora bate a isca amarrada na ponta da linha de sua vara no chão, também fazendo um barulho específico, os aratus, correm e agarram a isca, neste momento é preciso muita agilidade para em um movimento lançá-los dentro do balde ou saco rapidamente, para que não se soltem da isca e caiam no meio do caminho. Quando aratus pequenos/filhotes mordem sua isca, em geral elas balançam a vara para que o filhote se solte, existe uma sabedoria comum de que é preciso deixá-los crescer, para se reproduzirem e assim manter o equilíbrio do mangue.

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Pegando aratu na gaiteira

Permanecem assim por um tempo em um pesqueiro e quando já não estão mais pescando aratus ali, se movimentam para o próximo. No caso das que vão caminhando pelo mangue, a caminhada pode ser pelos galhos, o que exige muita agilidade, ou pela lama, o que exige muita força já que os pés podem atolar profundamente sendo muito difícil sair. Ambasas  formas são perigosas e danosas a saúde, caminhando pelas galhas, o risco de queda é grande, já que muitas estão apodrecidas e se quebram; caminhando pela lama, o contato constante com a umidade gera muitas doenças, assim como o excesso de força nas pernas para se locomover na lama que causam muitas doenças circulatórias. Ouvi relatos sobre quedas que causaram danos definitivos aos corpos das pescadoras, assim como ouvi muitas histórias de doenças desenvolvidas pelo contato intenso com a lama e até casos em que a lama “quase engoliu” a pessoa. Além disso, toda a locomoção dentro do mangue é feita carregando o saco com o que foi pescado, e que pode chegar  a vários kilos. Assim, a pesca de Lu Andrade, de canoa, é menos insalubre, porém, em geral rende menos quantidade, o que para muitas que vivem exclusivamente dessa renda não é viável. Além disso, não são todas as mulheres que possuem canoas, muitas delas precisam caminhar até o mangue, ou irem em grupos grandes em uma canoa até o local e então lá precisam se espalhar.

Pescando Aratu

Quando a maré começa a encher, elas retornam para suas casas e então cada uma dará seguimento a sua estratégia de beneficiamento. Idealmente deve-se catar no mesmo dia, ou no máximo no dia seguinte, para congelá-los já catados. Porém, cada mulher encontra uma forma de se adequar. Algumas pagam outras para catar e assim darem conta de toda produção, outras congelam o aratu sem catar e depois descongelam, porém, afirmam que isso interfere em seu sabor e textura. Mara, grande pescadora de Barra Velha me disse que congela já cozido e depois para catar, volta a fervê-lo, e assim mantém o seu sabor e textura. Dona Ana por outro lado, me disse que quando captura 2 quilos já volta para casa, para assim ter tempo de catar o que pescou.

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Nathalia e Railane catando aratu

O Aratu é vendido sempre em forma de catado congelado. Em geral uma boa safra de aratu gera em torno de 3kg /dia, isso significa algo entre 240 e 300 aratus, mas existem dias que se pegam apenas 1 ⁄ 2 kg, ou seja, aproximadamente 40 aratus. Ultimamente as pescadoras de aratu tem enfrentando grande dificuldade na sua captura, já que tem se tornado comum a captura noturna da espécie, que é facilmente atraído pela luz da lanterna. A pesca noturna é majoritariamente masculina, já que em geral a noite é mais perigosa para as mulheres e são elas as responsáveis pelos cuidados da casa e das crianças. Assim, pela manhã, muitos pesqueiros já estão pescados e elas tem tido dificuldade de capturar a mesma quantidade que costumavam pegar antigamente. Além disso, a pesca noturna captura aratus de todos os tamanhos, e assim muitos filhotes não se reproduzem antes de serem capturados, o que também tem contribuído para a redução da quantidade de aratus no mangue.

Caranguejo

Caranguejo no saco

A pesca do caranguejo acontece de duas formas: enfiando a mão dentro do buraco do caranguejo, ou colocando o covo. Antigamente pegava-se muito caranguejo durante a “andada”, período em que o animal sai para acasalar e fica mais exposto e lento. Outra técnica antiga era a chamada “redinha” em que posicionava-se um emaranhado de fios de saco na entrada de sua toca e o animal se prendia a ela. Porém, atualmente a legislação ambiental proíbe a captura dos caranguejos nesses períodos, ou por este tipo de armadilha. Tais proibições têm garantido a reprodução do animal e reduzido as capturas de filhotes. Contribuindo para o aumento da população de caranguejos dentro da RESEX, conforme vem sendo constatado pelo monitoramento do caranguejo feito anualmente pelo ICMBio.

Siris

O Siri é pescado dentro da água, de dentro da canoa. No caso do siri, é bom pescar com a maré enchendo ou cheia, como me explicou Aninha e Luana, duas grandes pescadoras da comunidade de Atalaia, a principal comunidade pescadora de Siri da RESEX. Antes de sair para a pescaria é importante atenção com as marés, já que sair e retornar com a canoa exige uma certa quantidade de água para navegar, se não pode-se ficar preso em alguma parte do mangue até a maré encher novamente. Para pescar Siri pode-se utilizar a “siripóia”, aro que sustenta uma rede onde se amarra a isca, jogando-a na água; ou de linha, em que se amarra uma isca na ponta da linha e joga a linha dentro da água com a ajuda de uma vara ou de uma garrafa pet cortada para enrolar a linha.

Siri

Pescando de linha e puçá

Na siripoia, o siri entra até o centro da armadilha para pegar a isca, mas como a armadilha está submersa a presença do animal. Assim, é necessário levantá-la para verificar, porém, como Luana e Aninha me chamaram a atenção muitas vezes, não se pode levantar com muita frequência, já que é preciso dar tempo para o siri entrar na armadilha. Quando se levanta a siripoia e o siri está na armadilha, se retira a armadilha de dentro da água e joga o siri dentro do balde que está na canoa.

 Siripóia

Já na pesca com a linha, é mais fácil sentir o animal morder a isca e então puxa-se a linha devagar, ao mesmo tempo que  posiciona o “puçá”(espécie de vara com uma rede na ponta) abaixo do caranguejo e então o captura e o joga dentro do balde na canoa. A isca pode ser feita com pequenos pedaços de peixes , ou até mesmo pedaços de siri. Os animais são atraídos pelo cheiro da isca e por isso, é importante posicionar-se de modo que a correnteza espalhe o cheiro da isca pelo mangue atraindo os animais. Depois de pescados os siris são aferventados e em geral as próprias pescadoras produzem seus catados de siri, que serão comercializados.

Pescando Siri em Atalaia com Aninha e Luana

As diferentes espécies possuem suas peculiaridades, assim como suas pescadoras possuem suas preferências, a pesca do siri é mais fácil, porém rende menos quantidade e exige canoa, iscas melhores e ferramentas, a pesca do aratu é mais acessível já que a isca é feita do próprio mangue e as ferramentas são bastante básicas, porém devido ao tamanho do animal, é necessário grandes quantidades para receber uma boa remuneração; já  caranguejo é a espécie de maior valor de mercado, porém o mais difícil de pegar e de catar, já que seu casco é muito duro.

Luana - Pescadora de siri

Assim, essas mulheres se distribuem entre técnicas, e espécies orientadas por suas necessidades, suas condições e suas experiências de vida e conhecimento familiar, entre as muitas possibilidades que o mangue lhes oferece de sobreviver. O mangue é perigoso, e a vida das pescadoras e catadeiras é uma vida dura, cheia de dores, doenças e cansaço. Mas ainda assim, essas mulheres amam seus ofícios, amam o mangue, o ambiente, a paz que sentem ali, fazendo da pesca dos crustáceos sua garantia de vida não apenas financeira, mas emocional. Ouvi repetidas vezes o quanto elas se sentem bem quando estão no mangue, na tranquilidade daquele ambiente. Muitas que já não podem ir por suas condições de saúde, lamentam e sofrem a sua falta. E demonstram que ser pescadora não é apenas uma profissão, mas um modo de vida, uma cultura que compõe a sua identidade cultural.

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